quarta-feira, 1 de outubro de 2008

dια 01 ▫ Minha Primeira Cocaína

...Eu só quero dar saltos com minha bicicleta, mas neste instante recebo um telefonema. Meu tio dizia para ir ajudá-lo na peça de teatro, discuti com ele, disse não, não e não. Sem pensar duas vezes desliguei o telefone.
Voltei aos saltos, só que desta vez saltei tão alto, tão forte, tão longe... Me senti voando sobre duas rodas, ela saltava e saltava, de metros à metros, não se via mais o chão a baixo de mim... Segundos depois sentindo o cheiro do asfalto, me deparei com o mundo lá em baixo. Quando caí, era minha vizinhança, ruas redondas, casas padrões. Meu tio saiu de casa - louco, extremamente louco -, sem perguntas me levou para o teatro, quando olhei ao meu redor já estava lá dentro, várias pessoas, todas em seus lugares. Eu estava no palco, olhei para as cadeiras, estavam vazias. No palco, se encontravam umas 5 pessoas. Eles e elas discutiam sem parar. Assustado e confiante com toda aquela situação, me apoderei de uma faca, furei o braço de um sujeito forte, grande e alto; que estava ao meu lado. Ele olhou pra mim, irritado, tirou a faca de minhas mãos, jogou-a com tanta força para cima, em um fundo branco que acertou um rapaz, que trabalhava naquele momento.
Longe de todo aquele tumulto, agora eu estava no portão do Aracy, saindo pela secretária. Na velha e larga Av. São Paulo, olhei portão a fora e avistei outros alunos; alguns seguindo seu rumo, alguns sentados nos bancos da praça adiante. Como de costume, do meu lado estavam, Lucas e Bruno, dois colegas de classe. Comentei sobre o teatro, disse que não fui pago por meus atos. Com sorrisos maléficos eles olharam para mim
_ Você precisa do dinheiro? Quer ganhar fácil? – Disse o Bruno
_ Sim, claro! – Respondi com firmeza.
Tirou duas carteiras velhas da mochila. Já em minha posse verifiquei ambas. Com espanto e animação, toquei em cada nota de U$$100. Mais fundo de cada carteira havia pequenos sacos de cocaína. Com medo perguntei "Pra que isso?", e ele só respondeu "Você vai gostar".
À caminho da Tricolor, eu já estava eufórico de curiosidade, abri o pequeno saco, retirei uma pequena porcentagem, coloquei diante do nariz, com coragem aspirei tudo. Nada foi imediato, eles só entreolharam-se com risos, coloquei a droga no bolso e prossegui, na feira de artesanato, eu vi dois carros de polícia. Com medo, tentei disfarçar o máximo possível. Tentei evitar mas não consegui, olhei para cara dos homens da lei por uma fração de segundos, eles não desconfiaram. Peguei um pequeno panfleto amassado, levantei a mão esquerda e o soltei, aquele papel foi livremente pelos ares. Tentei colocar os pequenos sacos na mochila do Bruno, não queria acabar com a minha vida tão cedo. Sinto euforia, sinto-me no céu, usei mais um pouco do pó branco. Comecei a correr pelas ruas do Centro da cidade, feliz como nunca, gritei: "Mas eu.. Eu posso voar!", correndo nas calçadas, pulando para frente, eu flutuava, não havia gravidade, eu estava voando, literalmente voando. No fundo de meus pensamentos eu sabia que nada fora real, eu só sabia que a droga tinha me levado tal prazer, só me deu vontade de usar mais e mais.
Pés no chão; virei a banca de jornal, agora na Av. Getúlio Vargas. Carros de policia em todos os lugares, subi rapidamente as escadas do Shopping Gandara, entrei na Tricolor, estavam todos lá. Fiquei curioso ao ver o prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão. Apertamos às mãos, na minha cabeça só havia a questão "Porque um prefeito de Praia Grande estaria fazendo campanha em Mongaguá?".
Em um pequeno dialogo com a minha irmã, perguntei:
_ Laura, o que esses polícias estão fazendo aqui?
_ Estão procurando a cocaína! – respondeu ela com ferocidade.
Depois de ter ouvido esta resposta, me senti horrível, como se fosse o centro de um tumulto, eu sabia que aquilo tinha sido uma indireta. Eu pensei em esconder elas no banheiro, mas se eles me vissem entrando lá saberiam que fui eu. Com esperanças de acabar com tudo aquilo, eu disse alto: "Estou indo lá em cima", o irmão do meu pai, Daniel, disse: "Eu vou no 3º andar". Senti um medo de que ele fosse me seguir; que ele soubesse o que eu tinha causado. Saí correndo em direção das escadas, subi até o 2º andar, me escondi em um corredor, atrás de uma parede, vi ele subindo à escada, em direção ao andar superior. Agora me senti seguro, fui correndo pelos corredores, frustrado, procurando algum lugar para me livrar daquilo, olhava para os cantos das paredes. Não estou achando! Não estou achando!, e agora? Onde eu vou esconder... Estou sentido meu tempo acabando, estou confuso. Cheguei ao ultimo corredor, não tinha mais lugar pra ir. Tirei as drogas, larguei elas em um canto. Agora meus pensamentos eram "Eu vou voltar, eles não vão me achar com nada, as drogas vão estar lá em cima, e outro leva a culpa".
Corri pelos corredores em direção a escada, desci a primeira rapidamente, parecia que não tinha fim, por um momento pensei ter visto fantasmas. Desci mais um degrau, olhei pra cima para confirmar. Eu vi várias pessoas reunidas, olhando pra mim, cada vez que descia mais eu tinha certeza que estava vendo fantasmas, eu sabia que aquilo era efeito da droga, mas havia se tornado realidade, tudo dentro de mim. Aquela imagem estática de pessoas em cima de escada me olhando me lembrava algo familiar, por um momento pensei que fosse um pôster do Slipknot que tinha em meu computador, mas eram fantasmas, fantasmas criados pela minha imaginação? Eles saíram de seus lugares, aquele que parecia ser uma mulher, um vestido branco, seus cabelos tampavam sua face, aterrorizante.


Os degraus que não tinham fim chegaram ao fim. Corri pelo primeiro piso em busca de ajuda, mas eu sabia que ninguém, além de mim veria ela. Ela corria atrás de mim, não parava e nem se cansava, quando cheguei em frente a Tricolor, ela se prendeu em minha cintura, não deixava eu sair, ela queria me levar, eu sabia que aquilo era tudo por causa da droga, mas parecia mais real do que a própria realidade. Eu olhava para dentro da loja e não percebiam, consegui me soltar, corri para dentro da Tricolor. Enfim seguro, naquele momento eu só não queria sentir os contras da droga, não queria mais a droga.


Medo, medo, medo e mais medo. Me libertei, olhos arregalados, apertei os lençóis de minha cama. Acordei de um sonho? Ou seria um pesadelo?